O tempo da caverna
a pedagogia da noite escura da alma
Toda vez que acho que estou pronta para sair da caverna, dou três passos para fora, vejo a luz bem forte nos meus olhos. Percebo que ainda não 1. estou pronta?/ 2. não quero?/ 3. estou com medo? — não sei. Só sei que algo dentro de mim diz que ainda não é hora, que ainda existem coisas que só conseguem se mover em lugares escuros e úmidos de terra.
Talvez as saídas ocasionais da caverna sejam apenas para me lembrar do que me espera logo a frente, pois não tenho dúvidas que momentos de caverna não duram para sempre.
Geralmente, os períodos (que podem ser longos) desse tipo começam com uma noite escura da alma.
“A noite escura (..) faz tudo o que é possível para que você renuncie à própria imagem, pois sabe que você não é capaz de fazer outra coisa senão afogar-se, quando apaixonadamente se curva sobre o espelho das águas, em êxtase diante de si mesmo. Você está tão acostumado a essa vida que é incapaz de imaginar outra. (…) O ego, o egocentrismo, o homem trancado dentro de si mesmo não quer morrer. (…) A noite visa justamente libertar você dos seus limites egocêntricos e abri-lo para o universo” — Stinissen sem A noite escura da alma segundo São João da Cruz.
Depois desse período de noite escura, vivencia-se um momento de que você acha que está pronta, porque você sabe que foi totalmente transformada, mas a verdade é que você não sabe como aplicar isso no seu dia-a-dia. O que acontece a seguir é uma tentativa vã de dar conta, mas a verdade é que você acaba cometendo os mesmos erros de sempre, porque ainda não consegue de fato tomar atitudes em direção a essa nova vida que se mostrou. Você ainda está no processo de integrar tudo que foi transformado. É só a partir da integração que você consegue pensar, imaginar e agir diferente.
É claro que depois de uma noite escura, você está um pouco mais esperta que antes. Você começa a notar os padrões, você começa a entender onde estavam os erros. Mas as chances de errar os erros de outrora são grandes porque você ainda está entendendo as coisas.
É só depois dessa fase que você começa a de fato tomar decisões diferentes. Mas é um processo lento, decantando devagar, não se pode ter pressa. Só depois dessas decisões, dos limites, das visualizações de uma nova vida é que, passo a passo, as coisas se transformam. Mas você ainda não chegou “lá”, você está só colhendo os primeiros frutos de uma grande mudança.
O que vem depois, eu ainda não sei exatamente. Até porque estou colhendo os pequenos frutos. E se colhe esses frutos apenas nessas saídas ocasionais da caverna. Ainda preciso voltar para ela de tempos e tempos para recuperar minha energia, criar estratégias para os próximos passos. Sair de vez e não voltar seria um erro, pois ainda há o trabalho do mago dentro desse espaço escuro e seguro (mas que demanda tanto da gente).
Isso pode durar alguns anos. Para outras pessoas podem ser meses. Mas é o processo de crescimento da alma, do amadurecimento, que não pode ser acelerado ou negado se queremos florescer nessa vida.
Toda vez que acho que estou pronta para sair da caverna, dou três passos para fora, colho os frutos que estão prontos para mim, vejo a luz bem forte nos meus olhos e retorno. Saboreio os frutos em silêncio, sentada perto do fogo, com a certeza de que meu momento chegará, que meu florescimento se consolidará e que poderei, enfim, viver com os outros.
Decerto sentirei falta da caverna. Desse lugar em que posso repousar para me transformar, para encontrar partes melhores de mim, para enterrar aquilo que é velho e não mais nutre nada e nem ninguém. Decerto sentirei medo quando for a hora de ir para fora, deixar o sol queimar a pele e abrir o coração, estar à serviço do outro e não mais de mim mesma. Mas sei também que a fase de abundância tem sua própria beleza. Cada coisa no seu tempo, espiralando em rodas da fortuna.




Eu to vivendo algo que parece ser parecido 🤯